O ALTAR
Após o meu encontro com o Anjo da Anunciação, senti-me preparado para iniciar a peregrinação. Contudo, não são todos os que conquistam o direito de transitar pelos caminhos que levam e trazem a este território híbrido, entre o tangível e o digital. Eu precisava da permissão e da proteção do Senhor dos Caminhos. O Exu Digital, aquele que une o mundo tangível ao virtual: laroiê Exu! Exu é mojubá[2]

Faculdade de Belas-Artes, 2019.
Em 21 de novembro de 2019, na abertura da 11ª edição do INSHADOW: Lisbon Screendance Festival ocorreu o segundo momento da peregrinação com a inclusão da performance Inter Faces na programação do evento. Para esse segundo momento, além do Anjo da Anunciação, um novo conteúdo digital foi desenvolvido: o altar dedicado ao Senhor dos Caminhos. A imagem do performer foi utilizada para uma interpretação visual do orixá Exu. Por tratar-se de uma divindiade de matriz africana que está associada aos caminhos e que exerce o papel de mensageiro entre a humanidade e o mundo espiritual, a figura de Exu foi apropriada para a criação de uma nova divindade, um ser que zela pelos caminhos entre o tangível e o digital, que orienta os aventureiros que se lançam pelos caminhos que conectam e transformam a matéria em pixel ou que sobrepõe o pixel à matéria. Com o desenvolvimento da investigação, o altar foi transformado em um dos santuários percorridos pelo Peregrino.


A performance consistiu na intervenção realizada pelo Peregrino ao alertar o público sobre a presença de um altar situado naquele espaço. Após realizar o alerta, o peregrino apresentou-se contando a sua história, do encontro com o Anjo da Anunciação ao presente momento, em que deveria pedir a permissão e a proteção do Exu Digital para transitar pelos caminhos que levam do real ao virtual. Empunhando um cajado encimado pelo telemóvel com a aplicação em RA e um ampliador de tela, o peregrino exibiu o altar ao público. Após o ato de reverência ao Exu Digital, o peregrino aproximou-se do público e entregou a lente para que estes contemplassem o altar.
[2] “Termo que tem sua origem no grupo africano étnico-linguístico nagô-iorubá, e remete a algo como ‘Salve o mensageiro’, ‘Olhe por mim Exu’ e ‘Me guarde’ […] No caso do Mojubá, ele é inserido na frase quando queremos dizer algo como ‘à vós meus respeitos’ , ‘eu te saúdo’ ou ‘eu o reconheço como superior’, por isso é comum saudar Exu evocando esse termo”. (Disponível em: https://umbandaead.blog.br/2017/10/19/saudacoes-a-exu-e-seus-significados/ Acesso em: 06 de abril de 2020)
O CAMINHAR POR UMA PAISAGEM HÍBRIDA
Com a pandemia de COVID-19, o cronograma de apresentações presenciais da performance Inter Faces foi comprometido. Uma solução consistiu na apresentação remota da ação performativa, de forma síncrona e assíncrona. Uma das apresentações ocorreu durante o festival Oeiras Ignição Gerador (2020) com o vídeo de divulgação da performance Inter Faces, demonstrando tanto a utilização da RA em dispositivos móveis com o reconhecimento de marcadores quanto a RA com conteúdos digitais geolocalizados. Por ter sido produzido durante a investigação, o vídeo não contemplou os santuários, conteúdos criados posteriormente.